O Esconderijo da Solidão
Esther Crouch – 7 de junho de 2020
Todos os dias pela manhã, durante anos — longos anos — essa era a vista da janela da cozinha da minha casa. A primeira imagem do lado de fora, do lugar onde morei. Nossa casa em Oklahoma ficava num bosque. Construímos um lago dentro da propriedade. Plantei tulipas e outras flores, e as reguei com minhas lágrimas de saudade e solidão.
Passei muitas horas sentada no deck, observando os esquilos e pássaros. Conheci guaxinins e gambás — alguns chegaram até a ganhar nomes, já que nos visitavam com frequência. Lembro com ternura de certos esquilos que se aventuravam a comer na minha mão, desafiando meu fiel escudeiro Freud Ray, que me acompanhou quando deixei o Brasil, em 2001, para me casar pela segunda vez.
O amanhecer e o entardecer eram particularmente bucólicos, mas, com o cair da noite, as sombras dançavam e o jogo de luzes se tornava fantasmagórico — algo difícil de descrever em palavras, ou mesmo em pensamentos, para essa brasileira que se impôs a esse exílio. Exílio voluntário, na busca de uma segunda chance no amor.
Meu amiguinho Freud, meu filho querido de quatro patas, um verdadeiro gentleman, sempre ao meu lado. Ele ouviu muito, com paciência e olhos atentos. Muitas vezes senti que desejava falar, para me consolar. Para ele, a mudança das ruas do Itaim, em São Paulo, para o bosque em Oklahoma foi o melhor que poderia ter acontecido: corria livre, brincava de pega-pega com esquilos, guaxinins, gambás, pássaros...
Freud viveu 12 anos — cinco no Brasil e mais sete comigo no campo. Quando ele virou estrelinha, eu o enterrei perto do lago, à sombra da sua árvore preferida, o lugar onde mais gostava de passear. Enfeitei seu túmulo com pedrinhas brancas, uma das quais tenho comigo até hoje, sempre ao alcance da minha mão.
Muita coisa morreu e foi enterrada nessa paisagem. Parte de mim lá ficou. Sonhos antigos, lembranças de cores e perfumes, o toque do vento à tardinha nos meus cabelos — que ali pratearam.
A solidão é propícia ao crescimento. E assim pude continuar me reinventando e ganhando a força que só a dor imensa é capaz de dar. A força necessária para o voo da fênix.
Quando nos mudamos, ao deixarmos Oklahoma definitivamente, subi no carro e bati os sapatos — como Dona Maria de Portugal ao deixar o Brasil — para não levar comigo nem um grão de terra daquele bosque. Na outra mão, levava a pedrinha branca, roubada do túmulo do meu grande querido Sancho Pança, que virou estrelinha e iluminou — e ainda ilumina — as minhas noites escuras.
E.C.
Nenhum comentário:
Postar um comentário